Sob este luar prateado um mistério emerge das profundezas da floresta dos Perdidos, e perambula por todas as ruas e esquinas procurando por ti. Aflito está já que não te encontras, ao que parece, em lugar algum.
“Como ninguém conhece esse rosto tão belo? “ Indaga-se constantemente.
De nada sabe ao certo, exceto uma coisa: quem o visse jamais esqueceria.
E só ele sabe, pois é aquele que lembra: da delicadeza de cada detalhe; cada gesto, uma melodia.
Aquele que admirava o movimento e as ondas, o fluxo de vida, de seu amado em silêncio devotado.
E como a saudade esmaga seu peito agora! O pesar oprime o coração, sem ter alguém com quem dividir turbulenta emoção.
Quando todos já se foram, a esperança que resta é encontrar o único que faz sua alma cansada vibrar, como criança dourada ao ser presenteada.
Essa busca secular incessante quase faz o descompasso de seu coração congelar no tempo.
Mas o desejo, a fonte de sua procura, impulsiona as batidas com ternura. O faz continuar.
Como se sente anestesiado para a vida! O brilho do sol e as rosas já não lhe encantam mais, só trazem dores ao fazerem-no pensar que o mundo, a natureza e as pessoas continuam florescendo, alheios à sua falta.
Mas ele sabe que tudo isso é porquê nunca tiveram a oportunidade de conhecê-lo, não como ele. Ninguém nunca te conheceu como ele.
Ninguém nunca foi tão seu quanto ele,
que se lembra de tudo muito bem, dos amores aos escombros deixadas por tua partida.
Do auge daquele pranto do primeiro dia, que se fez rio que corre em serenidade e agonia, irrigando a relva em que costumavam se deitar ao luar e as rosas que roubava para te presentear.
Imagina-te de mil formas. Torce para estar bem. Só quer te ver feliz.
Te quer de volta, para ser feliz também.
Mas receia não estar, os que foram trazidos ao mundo para estarem juntos não encontram alegrias na separação.
Tudo o faz pensar naquele que sua alma anseia por reencontrar.
“E do alto de tua torre, em teu silêncio e tuas cores, será que lembra-te de mim?
Sinto tua falta, não apenas quando o barulho silencia, mas, especialmente quando os sons do mundo não me trazem notícias tuas.
Jogando me ao chão em funesta agonia.
Procuras por mim como procuro por ti?
Faz tempo que não ouço nada vindo de ti. De tua voz tão bela, sinto falta.
Teu silêncio aos meus ouvidos, se mostra agora tão barulhento…
À Narciso que procuro dedico tudo, e rogo aos astros para não permitir que esqueças de nós.
E a cada dia reconstruo teu rosto ao vento para não deixar morrer a lembrança que é viva como chama, que não se deixa apagar.
E sinto falta, sinto falta, como sinto falta! Só sei sentir tua falta.
Do nosso quase para sempre limitado pelas intempéries de nosso tempo, ou seria por nossa falta? De sorte? Talvez. De amor? Jamais. “
Então, em uma de suas incontáveis perambulações, encontra um espelho adornado ao fundo de um lago.
O choque o atinge primeiro.
Uma lágrima solitária percorre a face, e, então, uma segunda nasce abrindo caminho para outras muitas.
O sorriso surge depois.
Do outro lado está aquele rosto amado, descansado, e prende a atenção naqueles castanhos magnéticos pela primeira vez em muito tempo.
Há um vidro que os separa, e só um tem consciência do outro.
Aquele breve momento destinado a eternidade é tudo o que podem ter.
O amor ainda vive no âmago de sombra-mistério.
E isso é tudo.
É vislumbre da paz.
Sombra-mistério tornou-se guardiã daquele que ama.
Um, agora, existe por dois.
E, no fim, tudo que ama termina em solidão.
Ainda assim, nada foi em vão, pois, seu amado é a coisa mais bonita que o amor já conheceu, que a existência lhe presenteou.
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